Audiência Pública das Escolas Bilíngues para Surdos no RS

Hoje de manhã (2ª-feira, 4/6) teve a Audiência Pública das Escolas Bilíngues para Surdos no RS na Assembleia Legislativa. Os surdos da banca falaram em LIBRAS e os ouvintes, em alto e bom português. As intérpretes tornaram o evento acessível para todos, muito obrigado!

Uma breve contextualização para os que não estão a par. Existem diferentes tipos de surdos, com diferentes tipos de perda auditiva e que se valem de diferentes formas de comunicação. Esse que vos escreve, por exemplo, é surdo oralizado e implantado, utiliza a leitura labial, fala e audição proporcionada pelo implante coclear para se comunicar. LIBRAS é outra forma de comunicação que estou tentando aprender, usada principalmente mas não exclusivamente pelos surdos sinalizadores e bilíngues. A audiência ocorreu em prol dos 2 últimos grupos, apoiados por simpatizantes (intérpretes, pais de surdos, políticos etc).

O que constitui uma escola bilíngue, a proposta defendida na Assembleia? É a luta pelo direito ao ensino nas escolas com LIBRAS como língua 1 (L1) e português escrito como L2.

Quem pode estudar na escola? Até onde eu sabia, somente surdos e através de sinais. Hoje me disseram que ouvintes que dominam a língua de sinais também poderiam se matricular na escola, caso haja interesse. Para autistas e outros distúrbios de aprendizado que tenham mais facilidade com sinais e não oralização, talvez seja interessante essa abertura.

Porém, a proposta de escola bilíngue vai contra as metas de inclusão do MEC, que defende a permanência destes alunos em escola regular com acesso ao conteúdo didático através de intérpretes que sinalizam/oralizam o que é passado ao aluno e podem copiar a matéria dada em aula. Além de intérpretes, há o atendimento escolar especializado (AEE) em turno inverso, para estimular o conhecimento adquirido no 1º turno em português e/ou LIBRAS, dependendo do caso.

Grande parte da sociedade vê a escola bilíngue com maus olhos por isolar o surdo do resto da comunidade, enquanto a comunidade surda em geral não quer a inclusão porque LIBRAS fica relegada à 2ª língua e não há o contato com os pares surdos na escola inclusiva.

Na escola bilíngue sim, existe esse contato e o uso de LIBRAS como L1. O desenvolvimento linguístico se desenvolve rapidamente no ambiente escolar.

Eu sou a favor da escola inclusiva – não gosto do termo “inclusiva”, mas da proposta sim. Acho que o contato entre pessoas de diferentes origens, cores e credos é enriquecedor para todos, todos ganham com isso. E quanto à comunicação, neste caso? Bom, para tudo existe uma solução. O surdo pode aprender a oralizar e fazer leitura labial (sim, sei bem que exige muito esforço e trabalho, assim como muita coisa na vida), os colegas podem aprender LIBRAS, a comunicação pode ser mista, pode-se usar papel/celular para ajudar, infinitas possibilidades. Eu passei por uma escola regular, vivi minhas dificuldades e desgostos, assim como alegrias, igual a muitos outros, independente do histórico, e tô aqui. Se tivesse a opção de mudar algo, não o faria.

O fato de eu ser a favor de escolas inclusivas quer dizer que sou contra as escolas bilíngues? Não, eu era a favor até agora. Sei que para muitos essa luta é importante e necessária. Apenas digo que esta não é minha opção favorita, mas respeito e apoio os que a defendem. Só espero o mesmo respeito em troca.

Na exposição de ideias dos membros da mesa, senti que me faltaram com o respeito não somente a mim, mas com muitos surdos oralizados e implantados. Essa falta de respeito me deixou com o pé atrás. Algumas das frases proferidas foram:

“O implante coclear (IC) joga a LIBRAS no lixo”. Não somos todos farinhas do mesmo saco, há diversidade na surdez. Há quem use as duas formas de comunicação e circule bem nos dois lados. É errado querer isso?

“Tudo bem que um surdo seja implantado, contanto que saiba LIBRAS”. E os surdos que não sabem ou não querem aprender LIBRAS, sejam implantados, protetizados ou não usem nada, não tá tudo bem com eles?

“Todos sabem que o IC acumula diversos casos de insucesso”. Cadê a fonte? Por que não deu certo? E os diversos casos de sucesso, não vale a pena mencionar? Se é pra contar uma história, não conte pela metade.

“Respeito é via de mão dupla e não se impõe respeito desrespeitando outras maneiras de se lidar com uma mesma condição.” – LL

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2 Responses to Audiência Pública das Escolas Bilíngues para Surdos no RS

  1. Ida says:

    Sempre brilhante, Gui! Que bom que escreveste sobre essa audiencia. A discussao esclarece muito.

  2. Diogo Madeira says:

    Curti muito o seu post, Gui. Parabéns! Há uma coisa que me deixe curioso: quem é LL? Acho que já sei quem é… Te falo no chat do Facebook.

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