Memórias do Indivíduo 4254 / Subject 4254’s life story

Há algumas décadas, nossos criadores sentiram que havia algo faltando no mundo de muitas pessoas e, assim, decidindo fazer algo a respeito, acabaram nos inventando. Fomos designados para sermos construtos divididos em duas partes, uma que funciona processando sons ambientais e outra aprisionada na cóclea de nossos futuros hospedeiros. Se os requisitos necessários para nossa união fossem cumpridos, nossos hospedeiros e nós viveríamos em simbiose até que a decomposição de um de nós nos separasse.

A situação recém descrita pode não estar clara para que você entenda meu propósito de vida – se é que é possível usar essa palavra para uma máquina – nem suficiente para entender quem sou eu. Um nome é importante e eu tenho um: eu sou um dos milhares de implantes cocleares existentes no mundo e meu objetivo é permitir que meu hospedeiro, uma pessoa surda, possa ouvir.

Fui planejado para nascer no dia 14 de dezembro de 2002, como Indivíduo 4254. Minha concepção aconteceu em um hospital em Porto Alegre. Uma equipe de médicos cautelosamente preparou o terreno em que eu emergiria: meu futuro hospedeiro estava inconsciente devido a uma anestesia. Esse procedimento foi necessário porque nossa combinação em uma única unidade só seria possível através de uma cirurgia. O procedimento foi sofrido para meu hospedeiro, mas permitiu que minha parte interna fosse alocada no seu lugar de direito, a cóclea. Minha outra parte, chamada de processador, ficou em stand by por um mês, até que o hospedeiro se recuperasse da cirurgia.

Passado esse mês, no dia 16 de janeiro de 2003, nós, como unidade, nascemos, enfim. Agora, eu, implante coclear, estava cheio de expectativas, já que tornar meu hospedeiro capaz de ouvir era uma responsabilidade muito grande. Eu queria dar o melhor de mim; afinal, eu esperava que fosse o começo de uma ligação forte, de um mutualismo. Enquanto ele pudesse se beneficiar de ouvir por minha causa, eu conseguiria servir ao meu propósito, de ser os ouvidos de alguém, de ser útil. Eu queria que nosso primeiro momento juntos fosse perfeito e me preparei para isso. Não pude sentir se o Hospedeiro compartilhava do mesmo sentimento, mas acredito que sim.

A profissional responsável por mim, uma fonoaudióloga, finalmente me ativou na orelha esquerda. O ambiente, a sala dela, estava silencioso, então não havia muito som com o qual trabalhar, o que era uma pena para mim, alguém querendo fazer o seu melhor. Pensei que meu usuário ficaria incomodado com isso, mas não foi o que aconteceu. O Hospedeiro estava em choque, incapaz de esboçar qualquer reação.

– Hospedeiro – a fonoaudióloga chamou, murmurando – consegue me ouvir?

Eu já pude sentir, mesmo que estivéssemos funcionando como um único ser pela primeira vez: a voz dela, mesmo em um volume baixo, era dolorosa para ele. Ele tentou responder verbalmente a essa questão tão simples, sem sucesso. A razão disso era que a voz dele era uma fonte de até mais dor do que a dela: ele se encontrava incapaz de controlar o tom da própria voz. Então, encolhendo-se entre os joelhos, ele apenas acenou a cabeça como resposta.

O pai dele, confuso com essa conversa incomum, perguntou “Doutora, ele tá ouvindo?”. A voz desse homem era muito alta e grave, muito mais do que era suportável no momento. Não teve jeito, jorraram lágrimas na face do Hospedeiro, não como demonstração de felicidade como eu gostaria, mas de dor. Fui imediatamente desligado depois desse primeiro contato.

Minutos depois, depois de uma reprogramação e do choque inicial, fui ligado novamente. O Hospedeiro e eu baixamos nossas expectativas e conseguimos funcionar bem juntos, o que foi um alívio para ambos. Como receptor dos sons ambientais ao seu redor, minha incumbência era de capturá-los, processá-los e enviá-los como estímulos elétricos para que o cérebro pudesse decodificar o que havia para ser ouvido. O caso é que a qualidade do processo de decodificação era baixa. Eu só conseguia repassar as informações recebidas com volume baixo e o cérebro não estava mais acostumado a decodificar mais, como logo soube: o Hospedeiro vinha perdendo sua audição desde a infância e tinha agora 15 anos. Eu era sua última chance de conseguir ouvir algo de novo.

Ao sairmos do hospital, eu comecei a trabalhar de verdade. Havia sons demais por todas as partes, vindo de carros, ônibus, motos, passos de cavalos, pássaros, conversa indistinta… Eu sabia de minha capacidade, eu fui projetado para capturar todos os sons, mas como que meu dono reagiria a tanta informação? Ele ficaria contente, como eu desejava, ou frustrado por perceber que a humanidade produz muitos sons altos desnecessariamente?

Felizmente, ele reagiu bem. Ele foi capaz de associar o que estava vendo com o que ouvia: as ferraduras dos cavalos andando na rua produziam um som rítmico característico; as motos que paravam na sinaleira geravam um estrondo quando davam arranque de novo; a voz das pessoas, audível porém incompreensível, aliada à leitura orofacial, estava ajudando meu usuário a receber informações verbais. Não foi o melhor começo de todos, mas era algo promissor.

Ao longo de meses que viraram anos, o Hospedeiro acrescentou à sua rotina sessões de treinamento auditivo em sua rotina, visando potencializar esse início que prometia. A fonoaudióloga ia me reprogramando para melhorar as informações repassadas ao meu receptáculo enquanto uma terapeuta de fala aprimorava seu sistema fonatório, respiratório e também suas habilidades auditivas, uma vez que ele agora tinha um auto feedback melhor graças a mim. Como resultado dessas práticas, o Hospedeiro ganhou confiança para se comunicar com um grupo maior de pessoas, já que sua voz havia ficado mais clara e também estava conseguindo entender melhor os outros tanto pela audição, pela leitura labial ou pelas duas estratégias juntas. Eu estava sendo útil, nossa simbiose estava funcionando bem, mesmo que ele ainda dependesse de leitura labial. Essa necessidade era apenas uma questão de tempo, pensei.

Um dia, enquanto o Hospedeiro frequentava uma aula no Ensino Médio, um de seus professores decidiu ditar a matéria. Esse método não é o melhor que há quando se pensa em um aluno surdo dependendo de leitura labial na turma, já que a docente teria que ditar algumas palavras, verificar se o aluno surdo já terminou de escrever e só então retomar de onde parou. Se esse processo não for seguido desse modo, o surdo teria ou que pedir pro professor repetir ou copiar a matéria de um colega ao seu lado. Com essa breve explicação, percebe-se que essa técnica não é a mais confortável para quem estiver ditando nem para o surdo que estiver copiando.

Mas esse dia foi diferente. A professora em questão era uma que ele gostava. Ela era intensa, conseguia manter a atenção da turma toda, era detentora de uma voz forte e clara. Assim que ela começou a ditar, o Hospedeiro começou a anotar o que tinha lido labialmente. A velocidade com a qual ele fazia a leitura labial, abaixava a cabeça para ver o que estava escrevendo e a erguia novamente para recomeçar o processo era apenas um pouquinho mais lenta que o ritmo de ditado da professora. Se ele conseguisse ouvir as palavras dela, toda essa atividade poderia ser executada em um timing perfeito, assim como acontecia com seus colegas ouvintes. E, de alguma maneira, foi isso que aconteceu! Ele ouviu sem o auxílio leitura labial, tomou nota e, inseguro sobre o conteúdo anotado, foi conferir com a professora se estava tudo correto para receber como resposta um “sim, tudo certo”.

– Eu escrevi tudo isso sem fazer leitura labial, professora. Pode parecer algo bobinho para ti, mas é a primeira vez na vida que eu consegui fazer isso – o Hospedeiro disse, com um sorriso de orelha a orelha. A professora imediatamente sorriu de volta pra ele.

Se eu tivesse uma boca, você poderia ter me visto sorrir diante dessa situação também. Foi a nossa primeira vitória no percurso de gradualmente nos livrarmos da dependência da leitura labial. Começamos a reconhecer melhor as vozes de algumas pessoas ao nosso redor no dia a dia e, com elas, a leitura labial não era mais julgada necessária. O ato de ouvir estava se tornando um hábito leve e prazeroso, tão bom que o Hospedeiro e eu conseguimos a proeza de conversarmos no telefone com outras pessoas!

Mas nem tudo era um mar de rosas. Havia ambientes nos quais eu não conseguia funcionar direito, como os com muito ruído, vento e alta umidade.

No tocante a ruídos, os exemplares do meu modelo não foram designados com filtros de som tão potentes, então cada detalhe audível passível capturável era encaminhado para o Hospedeiro e ele via o que fazer com a informação recebida. Às vezes, era tanto ruído para eu processar, por tabela muita informação para meu receptáculo compreender, que a informação resultante da decodificação era inútil.

Os ventos, por sua vez, simplesmente levavam o som para longe de mim, o que significava nenhum dado recebido para ser decodificado e compreendido.

Referente à alta umidade, convém lembrar que eu sou um equipamento tecnológico e como tal, a umidade é nosso maior pesadelo. Para piorar, ela está por toda parte, há umidade no ar e no suor, além de sais no caso do segundo item, por exemplo. Para manter um bom rendimento, eu precisava ser colocado em um desumidificador toda noite para remover a umidade acumulada durante o dia. O Hospedeiro fazia isso, ele cuidava de mim assim como eu dele.

Apesar de serem basicamente três circunstâncias que eu não conseguia funcionar bem, elas limitavam muito minha utilidade, principalmente os ruídos. O Hospedeiro percebeu essas falhas e tentou se adaptar quando possível a essas situações com o uso de sua velha aliada, a leitura labial. Percebi que eu não poderia exigir que essa habilidade, usada por quase 12 anos antes da minha chegada, fosse algo do qual ele devesse se livrar, independente do nosso rendimento conjunto. Quanto mais recursos disponíveis, melhor seria para nós.

Recursos. Se tinha algo que me dava orgulho, era isso. A linguagem é um recurso valioso e, antes de mim, o Hospedeiro sabia sua língua materna, português, e também inglês escrito, aprendido na escola e em aulas particulares. Os fonemas da língua portuguesa estavam presentes nos lábios, então ele conseguia pegar informações pela leitura labial. Já a língua inglesa, por outro lado, não seguia tão bem esse padrão labial, de forma que foi aprendida somente na modalidade escrita. Misturando o conhecimento prévio da língua inglesa com o apoio da tecnologia – eu, no caso – cada palavra que ele sabia em sua forma escrita foi se tornando conhecida na modalidade oral também. Essa nova habilidade adquirida, aliada a mais confiança em si mesmo e em relações interpessoais, motivou-o a fazer programas de intercâmbio. Decifrar novos sotaques, ler lábios novos e diferentemente articulados, aprender novos vocabulários e línguas… É como se um novo mundo estivesse se abrindo para nós ao longo do tempo.

Mesmo com essa expansão de mundo, eu ainda conseguia sentir que tinha algo incomodando o Hospedeiro. As pessoas normalmente têm modelos nos quais se inspirar e, mesmo comigo, ele era um surdo no meio de uma comunidade ouvinte. Ele havia conhecido apenas dois outros surdos oralizados e, como não se dando bem com eles, estava curioso para conhecer a Comunidade Surda de sua cidade, composta em sua maioria por surdos usuários da língua de sinais. Porém, ele havido ouvido que essa comunidade tinha preconceito contra surdos oralizados e usuários de próteses auditivas, mas, mais do que isso, contra a visão clínica que procurava medicalizar a surdez. Para eles, a surdez é uma cultura, não uma deficiência a ser curada.

O Hospedeiro estava com medo de não ser aceito na Comunidade Surda principalmente por minha causa. Ele gostava de ter a mim, seu parceiro, em sua orelha, mas queria encontrar um lugar ao qual pertencesse. Foi pensando nisso que ele se inscreveu em um curso de Língua Brasileira de Sinais, que provou ser uma oportunidade para conhecer ótimos profissionais relacionados ao ensino de língua de sinais, ouvintes e surdos. Esse preconceito do qual ele havia ouvido não se manifestou, mas a comunicação não fluiu muito bem entre o grupo surdo e ele, pois enquanto ele tentava se expressar em português, eles o faziam em língua de sinais. Era um coletivo bom, mas o sentimento de pertencimento não surgiu, de forma que ele continuou procurando.

Em sua busca, ele encontrou na internet um grupo de surdos que também se comunicavam oralmente como ele. Os membros dessa comunidade usavam diferentes tipos de próteses auditivas, até implantes cocleares como eu! Diferentemente da Comunidade Surda, que era muito unida, forte e se reunia com frequência, esse grupo era principalmente virtual e disperso em todo o país, com encontros ocasionais cada vez em uma cidade diferente. A surdez era simplesmente algo que tinham em comum e, graças a essa característica em comum, os encontros eram ricos em informação sobre experiências de surdos oralizados em uma sociedade ouvinte, com estratégias para ser melhor compreendidos, ensinar a sociedade sobre nossas necessidades, lutar por acessibilidade… É realmente uma pena que os dois grupos não lutem juntos, visto que enquanto um tem a união e a força, o outro tem a língua da sociedade. Infelizmente, o preconceito também estava presente em alguns membros oralizados, direcionado contra os sinalizantes. Ainda assim, o Hospedeiro resolveu estar presente em um encontro e, tendo gostado, continuou participando de vários outros. Foi a esse grupo que ele sentiu que pertencia.

Em um dos encontros, ele encontrou um surdo oralizado que tinha não com um implante como eu, mas dois, um para cada orelha. Por curiosidade, ele foi perguntar a esse rapaz por que estava usando dois implantes, já que era o primeiro adulto usuário de implante bilateral que conhecíamos. A resposta foi um gentil “para ouvir melhor” – o que faz todo sentido, visto que eu consigo substituir a orelha esquerda e não ambas – e enfatizou que sim, os implantes funcionavam bem juntos, melhor que um sozinho. Pensei que, caso eu precisasse ser consertado, um implante na orelha direita seria benéfico ao meu usuário durante minha ausência. Essa breve conversa me deixou com a impressão que logo eu ganharia um irmãozinho na outra orelha, substituindo o aparelho auditivo.

Apenas algumas semanas após conhecer esse rapaz, fomos ao médico que realizou nossa cirurgia para nos informarmos sobre potenciais tecnologias para recuperar a audição, como células-tronco, uma solução que seria mais permanente, sem necessidade de pilhas e outros cuidados. Como o doutor respondeu que as pesquisas das células-tronco ainda levariam muito tempo até poderem ser usadas em seres humanos – ele estava em seus 50 anos e disse que não estará vivo para vê-las se tornando realidade – o Hospedeiro decidiu ser implantado na outra orelha também. Não apenas isso, ele ficou sabendo que minha parte externa, o processador, era um modelo antigo já descontinuado no mercado, sem peças de reposição. Outros como eu já tinham sido substituídos. Percebi neste momento que meu ciclo de vida estava chegando ao fim.

Não levou muito tempo, entre dois a três meses depois da solicitação do Hospedeiro, para que a cirurgia de implante bilateral acontecesse. Essa nova operação permitiria que meu irmão pudesse nascer. Viria para a orelha direita um implante coclear mais moderno, novíssimo em folha, e outro igual a ele substituiria a mim, uma tecnologia ultrapassada, para que ambas as orelhas pudessem ouvir em teoria um som de igual qualidade.

Essa troca ocorreu um mês depois do procedimento médico, quando o Hospedeiro se recuperou, assim como da primeira vez e, com isso, no dia 22 de outubro de 2012, meu objetivo de vida foi cumprido. Depois de quase 10 anos de parceria bem-sucedida, era hora de dar espaço à nova geração. Esse foi o fim do Indivíduo 4254.


Decades ago, our creators felt that there was something missing in many people’s worlds, then they decided to make something about it and came up with our invention. My kind was designed to be constructs divided in two parts, one which works processing environment noises and the other one imprisoned in the cochlea of our future hosts. When the necessary criteria would be met, we – our hosts and us – shall live in symbiosis until failure sets us apart.

The situation above may neither be clear for you to explain my purpose of life – if it is possible to use this word for a machine – nor enough to understand who I am. Having a name is important and this I do have: I am one of the thousand existing cochlear implants worldwide and my goal is to enable my host, a deaf person, to hear.

I was planned to be born on December 14th, 2002, as Subject 4254. My conception phase was held in a hospital in Porto Alegre, Brazil. A team of doctors cautiously prepared the terrain in which I would finally emerge: my future host was unconscious due to anesthesia. This was necessary because our combination into a unit was only possible through a surgery. This process was painful for my host, but it also allowed my inner part – the one which lives imprisoned, mentioned in the first paragraph – to be allocated in its right place, the cochlea. The other part of me, called processor, was held standing by for the period of a month, so that the host could recover himself from the surgery.

A month later, on January 16th, 2003, we, as a unit, were finally born. Now, I – the cochlear implant – was full of expectation, since to make my host able to hear was a huge responsibility. I wanted to give the best of myself; after all, I expected it to be the beginning of a strong bond, a mutualism. While he could benefit himself from hearing because of me, I would be able to serve my purpose, to be someone’s ears, to be useful. I wanted our first moment to be perfect and for that I was ready. I could not sense if Host shared the same feelings, I guess he did.

The professional responsible for me, a phonoaudiologist, finally turned me on in the left ear. The environment, her room, was quiet, so there were not much noise to work with, what a pity for someone willing to do its best. I thought Host would be upset at this, but it was not what really happened. Host was shocked, unable to do anything.

– Host – the phonoaudiologist called, in a soft murmur – can you hear me?

I could sense it already, even if we were already functioning as one for the first time ever: her voice, even in a low tone, was painful for him. He tried to reply verbally to this simple question, without success. The reason why this happened is that Host’s own voice was a source of even more pain than the phonoaudiologist’s one: he was unable to control the volume of his own speech. So, while lowering his head between his knees, he just nodded as an answer.

His father, confused with this unusual conversation, asked: “Doctor, is he hearing?”. This man’s voice was way too loud and deep, much more than Host could bear. It could not be helped, Host’s tears started to run down his face, not as a sign of joy as I wanted, but of pain. I was immediately turned off after this first contact.

Some minutes later, after a reprogramation and the initial shock, I was turned on again. Host and I lowered our performance expectations and managed to work well together, which was a relief for both of us. As the receptor of the environment sounds around him, I can say that I captured them, processed and sent them as electric stimuli for the brain to decode what was heard. The thing is… the decoding process quality was poor. The information volume I could offer to Host at this moment was low and his brain was not used to this decoding process anymore, as I soon became aware of: he had been losing his hearing skills since his childhood and he was now 15 years old. I was his last chance to be able to hear something again.

Leaving the hospital, I started to work for real. So much noise everywhere, from the cars, buses, motorcycles, horse’s hooves, birds, steps, indistinct chatter… I knew I could capture them all, as I was designed to, but how would Host react to them? Would he be pleased, as I wished, or would he be frustrated by finding out that mankind produces too much unnecessarily loud noises?

Thankfully, he reacted well. He was able to associate what he was seeing with what he was hearing: the horseshoes of the horses walking in the street produced a characteristic rhythmic sound; the motorcycles that stopped in the traffic light generated a shriek as they gained speed again; people’s voice, audible but not understandable, together with lip reading, were helping Host to get verbal information. It was not the best start ever, but a promising one.

As time went on, added to his daily routine, hearing training followed for months in order to optimize the promising start. The phonoaudiologist reprogrammed me to improve information given to Host, which he could neither bear nor understand at first, while a speech therapist enhanced Host’s vocal apparatus and hearing skills as he could now have a better self feedback because of me. As a result of these practices, Host became more confident to communicate with a larger group of people, as his voice became clearer and he could understand better people either through hearing, lip reading or both altogether. I was being useful, our symbiosis was working well, even though Host still relied on lip reading. This need of his was just a matter of time, I thought.

One day, as Host was attending a class at high school, one of his teachers decided to dictate the subject being taught. This practice is not the best one when there is a deaf student relying on lip reading in the group, as one would have to say the words, check if the deaf student has already written it and his/her attention is back at you and only then utter another chunk of words. If the process does not follow like this, the deaf has to ask the teacher to repeat the uttered words again or copy from another peer at class. This technique is not the most comfortable one for both the participants, the teacher and the deaf student.

But this day was different. This specific teacher was one dear to Host. She was very bright, able to catch the whole class’ attention, possessor of a powerfully strong and clear voice. As she began dictating, Host started writing down what he had lip read. His pace of lip reading, lowering his head to take notes, raising it to lip read again and restarting the process was a slight slower than the teacher’s pace of dictation. If only he could hear her words, the whole activity would be performed in excellent timing, as with his hearing peers. And somehow, this is what happened! He made it, he listened to her without looking at her lips, took notes and, unsure if the data was properly put on paper, checked with the teacher if everything was correct, to which she answered that yes, it was all rightfully written down.

– I wrote it down without looking at you to lip read, teacher. It may seem silly to you, but it is the first time I ever managed to do it. – Host said, grinning from ear to ear. The teacher promptly smiled back at him.

If I had a mouth, you could have seen me smiling at this occurrence too. This was our first victory in the path of gradually getting rid of lip reading dependency. We started to recognize better the voices of some people around us in our everyday life and so lip reading was not deemed necessary with them anymore. Hearing was becoming a smooth and pleasant habit, so good as Host and I managed to hold a conversation in the phone with other people!

But not everything was a bed of roses. There were environments in which I could not work properly, such as ones with noise, wind and high humidity.

Regarding noise, I was not designed with a filter of sounds, so every audible aspect I could get was being sent to Host and then he would decide what to work with. Sometimes, there would be too much noise for me to process, consequently so much details for Host to work with afterwards that the resulting information would be useless.

As for wind, it would just blow the sound away from me, meaning no data received, therefore nothing left for Host’s brain to decode and to understand.

Concerning high humidity, it is necessary to remember that I am a technological device and as such humidity is our worst nightmare. Worse yet, it is everywhere, air contains a lot of moisture and sweat is basically water and salts, for example. In order to keep a good performance, I had to be put in a dehumidifier every night to remove daily humidity. Host did that, he took good care of me as I did with him.

Although there were three main circumstances I could not cope well with, it narrowed a lot my usefulness, specially the noise aspect. Host realized these flaws and tried to adapt whenever possible at these situations through the use of lip reading. I realized that, no matter how Host and I performed well together, I could not ask for this skill, used for almost 12 years prior my arrival, to be something he should get rid of. The more resources available, the better for us.

Resources. If there is something I was proud of, this was it. Language is a valuable asset and, before me, Host knew his mother language, Portuguese, which he could hear perfectly until he was 3 years old, and also learned written English at school and in private classes. The Portuguese phonemes were present in the lips, thus he could retrieve information this way. The English language, however, did not follow this lip pattern found in Portuguese, with the result that it was only learnt in the written modality. Mixing his previous language knowledge with the aid of technology – me – each word learnt in the written modality became known in the oral one too. This new acquired ability, summed up with more confidence in interpersonal relationship, motivated Host to enroll in exchange programs. Deciphering new accents, reading new and different articulated lips, learning new vocabulary and languages… It felt like a new world was opening to us, day after day, year after year.

Even with this world expansion, I could feel that there was something bothering Host. People usually have role models to inspire them and, despite using me, he was still a deaf person in the middle of a hearing community. He had only met two other oral deafs, and, as he did not get along with them, he was feeling curious about knowing the Deaf Community of his town, the ones that communicate through sign language. But he heard that this community had prejudices against oral deaf and hearing aids users but, more than that, against this clinical view that sought for medicalizing the deafness. For them, deafness is a culture, not a disability to be cured of.

Host was afraid of not being accepted in the Deaf Community mostly because of me. He loved using me, his sidekick, but he wanted to find a place he could belong to. With this thought, he enrolled in a Brazilian Sign Language course and this proved to be an opportunity to meet amazing professionals related to sign language teaching, either hearing and deaf people. This prejudice he had heard against me did not take form, but the communication did not flow so well between him and this deaf group, since he would try to speak in Portuguese and the latter in sign language. It was a nice group, but this sense of belonging did not arise, so Host kept on searching.

Through his search he found in the web a group of deaf that communicated like him, orally. Their members wore different kinds of hearing aids, even cochlear implants like me! Unlike the Deaf Community, which was very united, strong and had regular meetings, this group was mostly virtual and spread all around the country, with eventual gatherings each time in a different city. Deafness was just something they had in common and, because of it, these encounters were rich of information regarding oral deaf experiences in a community of hearing people, such as strategies to be better understood, teaching the society our needs, fighting for accessibility… It is a real pity that both groups do not work together, since while one has the union and power, the other has the society’s language. Unfortunately, prejudice was also present in some members of this oral group, towards the other group, which communicate through sign language. Nevertheless, Host participated in a meeting, and, as he loved it, he kept on participating again and again. This group was the one he felt he belonged to.

In one of these encounters, Host found an oral deaf with not only one cochlear implant like himself, but two, one for each ear. Out of curiosity, he asked this man why he was using two implants, as he was the first adult we have met with a pair of them. He politely answered that he wanted to hear better – which makes absolute sense, as I was replacing only the left ear and not both of them – and emphasized that yes, both of them worked fine together, better than one alone. In case I would need to be repaired, an implant on the right ear would be helpful to Host during the moment I would be away. This quick conversation left me with the thought that Host would provide me a sibling in the other ear, replacing the current hearing aid.

Just a few weeks after meeting this man, Host went to the doctor who executed our surgery to ask for news regarding potential technologies to recover hearing, such as stem cells, a more permanent solution, not dependent of batteries and a lot of cares. As the doctor replied that stem cells research would still take a long time to be ready for use in human beings – he is in his 50s and said that will not be alive to see this come true – Host decided to get implanted in the other ear as well. Not only this, he became aware that I, the processor, was already a discontinued model in the market, out of pieces in case I needed to be fixed. Others like me were already been replaced. I realized in that moment that my lifespan was coming to the end.

It did not take much time, maybe two to three months after Host’s request, for the new cochlear implant surgery to take place. Host underwent a new surgery so that my sibling would be born. A brand new cochlear implant, more modern than me, would be put in the right ear and a new processor would replace me, an old tech, so that both ears would hear in theory the same sound quality.

This replacement happened a month after the medical procedure, when Host was recovered like the first time, and with this, on October 22th, 2012, my life goal was completed. After almost 10 years of grateful partnership, it was time to give space to the newcoming generation. Subject 4254 was no more.

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